Estima-se que cerca de 10 a 15% da população mundial adulta apresente critérios para pelo menos um transtorno de personalidade. No Brasil, dados de 2025 indicam que os transtornos do cluster B (especialmente borderline) são os mais frequentes em serviços de emergência psiquiátrica, correspondendo a aproximadamente 20% dos atendimentos ambulatoriais em saúde mental.
Você recebeu um atestado ou diagnóstico com o código CID TRANSTORNOS-DE-PERSONALIDADE e quer saber o que significa? Este artigo foi escrito por um médico especialista em clínica médica para esclarecer todos os aspectos desse grupo de condições, que afetam a forma como a pessoa pensa, sente e se relaciona. Vamos abordar desde a definição técnica até as opções de tratamento, passando por um caso clínico real e perguntas frequentes.
- Código: F60 (principal) – Transtornos específicos da personalidade
- Descrição: Transtornos de personalidade (inclui subtipos como F60.0 a F60.9)
- Categoria: Capítulo V – Transtornos mentais e comportamentais (CID-10)
- Versão: CID-10 (OMS)
- Subcategorias: F60.0 (paranoide), F60.1 (esquizoide), F60.2 (dissocial), F60.3 (emocionalmente instável – borderline e impulsivo), F60.4 (histriônico), F60.5 (anancástico – obsessivo-compulsivo), F60.6 (ansioso – esquivo), F60.7 (dependente), F60.8 (outros), F60.9 (não especificado)
Paciente: Ana Carolina, 28 anos, designer gráfica
Queixa principal: “Minhas relações são um caos. Eu me apaixono intensamente, mas depois sinto que a pessoa vai me abandonar e acabo brigando ou me afastando. Tenho medo de ficar sozinha, mas também não suporto a intimidade.”
Avaliação clínica: Durante a consulta, Ana apresentava labilidade emocional, ideação suicida intermitente (sem plano), padrão de idealização e desvalorização em relacionamentos, impulsividade (gastos excessivos, trocas frequentes de emprego) e sensação crônica de vazio. Foram solicitados exames laboratoriais (hemograma, TSH, vitamina B12) para descartar causas orgânicas, todos normais.
Diagnóstico: Após avaliação completa, o médico registrou o CID F60.3 — Transtorno de personalidade emocionalmente instável, tipo borderline. A paciente preenchia 6 dos 9 critérios do DSM-5 para o transtorno.
Conduta terapêutica: Prescrição de inibidor seletivo de recaptação de serotonina (escitalopram 10 mg/dia) para sintomas depressivos e ansiosos; lamotrigina em dose baixa (25 mg/dia) como estabilizador de humor, com ajuste gradual. Encaminhamento para psicoterapia dialético-comportamental (DBT) e grupos de apoio. Orientações sobre manejo da impulsividade e plano de segurança para crise.
Evolução: Após 8 semanas, Ana relatou redução de 50% nas crises de raiva e melhora na estabilidade emocional. Continuava em psicoterapia e aderiu à medicação. A escala de impulsividade (BIS-11) caiu de 78 para 62 pontos. Manteve o emprego e iniciou um relacionamento mais estável.
Lição clínica: O transtorno de personalidade borderline exige abordagem multimodal (medicação + psicoterapia) e suporte contínuo. O diagnóstico precoce e o acolhimento sem julgamento são fundamentais para a adesão e melhora da qualidade de vida.
O que é o CID F60 na prática médica
O código CID F60 engloba os transtornos específicos da personalidade, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde. Na prática clínica, refere-se a padrões duradouros e inflexíveis de experiência interna e comportamento que se desviam marcadamente das expectativas culturais do indivíduo. Esses padrões se manifestam em pelo menos duas das seguintes áreas: cognição (modos de perceber e interpretar a si mesmo e aos outros), afetividade (variabilidade, intensidade e adequação das respostas emocionais), funcionamento interpessoal e controle de impulsos. Diferentemente de transtornos mentais episódicos (como depressão maior), os transtornos de personalidade são crônicos, começam na adolescência ou no início da idade adulta e causam sofrimento significativo ou prejuízo funcional.
Subcategorias e variantes do CID F60
O CID-10 agrupa os transtornos de personalidade em subcategorias específicas:
- F60.0 – Transtorno de personalidade paranoide: padrão de desconfiança e suspeição generalizadas em relação aos outros, interpretando intenções como maliciosas.
- F60.1 – Transtorno de personalidade esquizoide: padrão de distanciamento social e restrição na expressão emocional.
- F60.2 – Transtorno de personalidade dissocial: padrão de desrespeito e violação dos direitos alheios, frequentemente associado a comportamento antissocial e criminalidade.
- F60.3 – Transtorno de personalidade emocionalmente instável: subdivide-se em tipo impulsivo (predomínio de atos impulsivos sem consideração das consequências) e tipo borderline (instabilidade afetiva, relacionamentos intensos, medo de abandono, ideação suicida).
- F60.4 – Transtorno de personalidade histriônico: emocionalidade excessiva e busca de atenção.
- F60.5 – Transtorno de personalidade anancástico (obsessivo-compulsivo): padrão de perfeccionismo, ordenação e controle mental e interpessoal.
- F60.6 – Transtorno de personalidade ansioso (esquivo): hipersensibilidade à rejeição, sentimentos de inadequação e inibição social.
- F60.7 – Transtorno de personalidade dependente: necessidade excessiva de ser cuidado, comportamento submisso e medo da separação.
- F60.8 – Outros transtornos de personalidade: inclui o transtorno narcisista (classificado em outros sistemas, como DSM-5) e outros padrões específicos não listados.
- F60.9 – Transtorno de personalidade não especificado: usado quando os critérios gerais são preenchidos mas o subtipo não é claro.
Sintomas e como a doença se manifesta
Os sintomas variam conforme o subtipo, mas alguns são comuns a vários transtornos de personalidade:
- Padrão persistente de comportamento que difere do esperado para a cultura do indivíduo.
- Dificuldade em manter relacionamentos estáveis e satisfatórios.
- Reações emocionais intensas e desproporcionais a estímulos.
- Comportamento impulsivo (gastos, sexo, abuso de substâncias, direção perigosa).
- Sensação crônica de vazio (especialmente no borderline).
- Dificuldade em regular as próprias emoções.
- Autopercepção instável ou grandiosa.
- Desconfiança excessiva (paranoide) ou indiferença (esquizoide).
- Evitação de situações sociais por medo de crítica (esquivo).
Na prática clínica, esses sintomas costumam estar presentes há anos e impactam significativamente o trabalho, a vida afetiva e a saúde geral.
Causas e fatores de risco
Os transtornos de personalidade têm origem multifatorial. Estudos de gêmeos indicam herdabilidade de 30% a 60% para a maioria dos subtipos. Fatores ambientais incluem:
- Experiências adversas na infância (abuso físico, sexual ou emocional, negligência).
- Vínculos parentais inseguros ou inconsistentes.
- Trauma crônico (bullying, violência doméstica).
- Temperamento inato (alta reatividade emocional, baixa tolerância à frustração).
- Fatores neurobiológicos: alterações nos sistemas serotoninérgico e dopaminérgico, redução do volume do hipocampo e amígdala em pacientes borderline.
Não existe uma causa única; a interação entre vulnerabilidade genética e estressores ambientais é determinante.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico de transtorno de personalidade é clínico, baseado em entrevista estruturada e observação do comportamento ao longo do tempo. Não há exame laboratorial ou de imagem que confirme o diagnóstico. Critérios fundamentais (segundo CID-10):
- Padrão duradouro de comportamento e experiência interna que se desvia acentuadamente das expectativas culturais.
- Manifesta-se em pelo menos duas áreas: cognição, afetividade, funcionamento interpessoal ou controle de impulsos.
- O padrão é inflexível e permeia uma ampla gama de situações pessoais e sociais.
- Causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas.
- Estável e de longa duração, com início no final da adolescência ou início da idade adulta.
- Não é explicado por outro transtorno mental, uso de substâncias ou condição médica.
Instrumentos como SCID-5-PD (entrevista clínica estruturada para transtornos de personalidade do DSM-5) são amplamente usados em pesquisa e em serviços especializados.
Tratamento disponível e opções terapêuticas
O tratamento dos transtornos de personalidade é multidisciplinar e inclui:
- Psicoterapia: abordagem de primeira linha. Terapia dialético-comportamental (DBT) é a mais estudada para borderline. Terapia cognitivo-comportamental (TCC), terapia focada em esquemas e psicoterapia psicodinâmica também são eficazes.
- Medicamentos: não curam o transtorno, mas tratam sintomas associados (depressão, ansiedade, impulsividade). Inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS – fluoxetina, sertralina), estabilizadores de humor (lamotrigina, topiramato) e antipsicóticos atípicos em baixas doses (aripiprazol, olanzapina) são usados off-label com evidência moderada.
- Grupos de apoio: ajudam na psicoeducação e no manejo do estresse.
- Abordagem familiar: orientação a familiares sobre como lidar com o paciente sem reforçar padrões disfuncionais.
Quantos dias de atestado médico
O número de dias de atestado varia conforme a gravidade e o contexto. Para transtornos de personalidade, o médico pode conceder:
- Crises agudas (ex.: ideação suicida, descompensação grave): 7 a 15 dias, podendo ser prorrogado.
- Acompanhamento ambulatorial regular: 1 a 2 dias por consulta/terapia.
- Internação psiquiátrica: atestado cobre todo o período de internação + recomendações pós-alta (15 a 30 dias).
- Para casos crônicos com prejuízo funcional, o médico pode recomendar afastamento temporário pelo INSS (auxílio-doença) com perícia médica.
Não há um número fixo; o médico avalia caso a caso. A média típica para episódio moderado é de 10 a 14 dias.
Quando procurar médico urgente / sinais de alerta
Situações que requerem atendimento de emergência imediato:
- Pensamentos ou planos suicidas (especialmente com meios disponíveis).
- Automutilação (cortes, queimaduras) com risco de lesão grave.
- Comportamento violento contra terceiros ou ameaça iminente.
- Surtos psicóticos (alucinações, delírios) associados ao transtorno (menos comum, mas possível).
- Intoxicação por álcool ou drogas com risco de overdose.
- Incapacidade súbita de cuidar de si (alimentação, hidratação, moradia).
Em caso de urgência, procure o CAPS mais próximo, uma unidade de pronto-atendimento ou ligue 188 (CVV).
Prevenção e cuidados contínuos
Embora a prevenção primária seja desafiadora (devido aos fatores genéticos), algumas medidas reduzem o impacto:
- Intervenção precoce em crianças com sinais de desregulação emocional intensa.
- Ambientes familiares estáveis e acolhedores.
- Psicoterapia na adolescência para padrões emergentes.
- Evitar uso crônico de substâncias psicoativas.
- Manter acompanhamento psiquiátrico regular mesmo em fases estáveis.
- Prática de atividades físicas, sono adequado e alimentação equilibrada.
- Participação em grupos de suporte social e ocupações significativas.
- 01. Nunca interrompa o tratamento psiquiátrico ou a psicoterapia sem orientação médica; a adesão é o principal fator de bom prognóstico.
- 02. Em crises, use técnicas de grounding (foco em sensações físicas) para reduzir a impulsividade – por exemplo, segurar um cubo de gelo ou contar objetos no ambiente.
- 03. Mantenha uma lista de contatos de emergência (CVV, CAPS, psiquiatra) sempre acessível no celular.
- 04. Familiares devem evitar críticas ou julgamentos; a validação emocional (“Entendo que você está se sentindo assim”) é mais eficaz que conselhos.
- 05. O sono regular e a redução do consumo de cafeína e álcool ajudam a estabilizar o humor e diminuem a reatividade.
- 06. Considere participar de grupos de psicoeducação online ofertados por universidades ou associações de pacientes.
Perguntas Frequentes sobre o CID TRANSTORNOS
O CID TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE garante quantos dias de atestado?
Não há um número fixo; depende da gravidade. Em média, crises moderadas podem render 7 a 15 dias de afastamento. Casos graves com internação podem resultar em 30 dias ou mais. O médico assistente define com base na avaliação clínica e nas necessidades do paciente.
Qual a diferença entre transtorno de personalidade e transtorno de humor?
Transtornos de humor (como depressão maior ou bipolaridade) são episódicos, com início e fim definidos, enquanto os transtornos de personalidade são crônicos e estáveis ao longo do tempo. Porém, podem coexistir.
O transtorno de personalidade tem cura?
Não se fala em “cura”, mas sim em remissão e manejo. Com tratamento adequado (psicoterapia + medicação sintomática), a maioria dos pacientes apresenta melhora significativa dos sintomas e melhor qualidade de vida.
O CID F60 é usado para crianças?
Não. O diagnóstico de transtorno de personalidade é reservado para adultos ou adolescentes a partir dos 16-18 anos, pois a personalidade ainda está em formação na infância. Em crianças, outros CID são usados (ex.: F90 – hiperatividade).
Posso ter mais de um transtorno de personalidade ao mesmo tempo?
Sim, é possível a comorbidade entre subtipos, especialmente borderline com dependente ou histriônico. O CID permite mais de um código se os critérios forem preenchidos.
Transtorno de personalidade é a mesma coisa que psicopatia?
Não exatamente. A psicopatia é um conceito mais restrito, geralmente associado ao transtorno de personalidade dissocial (F60.2), mas com ênfase em traços afetivos (frieza, falta de empatia) e interpessoais. Nem todo indivíduo com F60.2 é psicopata.
Pessoas com transtorno de personalidade podem trabalhar normalmente?
Sim, muitas têm funções produtivas. Depende da gravidade e do tipo. Com suporte terapêutico adequado, alguns pacientes conseguem manter empregos estáveis.
O que fazer se a pessoa não aceita o diagnóstico?
A falta de insight é comum. Uma abordagem gradual, com psicoeducação e acolhimento, pode aumentar a aceitação. Em casos graves, a hospitalização involuntária pode ser necessária se houver risco de vida.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clinica Popular Fortaleza, com base na CID-10 (OMS) e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 21/06/2026
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. O diagnóstico e o tratamento indicados pelo CID devem ser definidos pelo médico responsável com base no exame clínico completo. Não use este artigo como base para autodiagnóstico ou prescrição.
Fontes consultadas:
CID10.com.br – Classificação Internacional de Doenças
MedlinePlus – Transtornos de personalidade (governo dos EUA)
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