De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de colo do útero é o terceiro mais incidente entre mulheres no Brasil, com cerca de 17 mil novos casos por ano. A conização, quando realizada precocemente em lesões precursoras, tem taxa de cura superior a 90%, evitando a progressão para câncer invasor.
Você já recebeu um resultado de preventivo (Papanicolau) alterado ou ouviu falar do termo “conização” e ficou com dúvidas sobre o que isso significa? Esse procedimento, que pode parecer assustador à primeira vista, é uma das ferramentas mais eficazes para diagnosticar e tratar lesões precursoras do câncer de colo do útero. Neste artigo, vamos explicar de forma clara e acessível o que é a conização, quando ela é necessária, como é feita e quais os sinais de alerta que merecem atenção.
- O que é: Cirurgia mínima invasiva que remove um cone de tecido do colo do útero para diagnóstico e/ou tratamento de lesões.
- Quando ocorre: Em casos de alterações no Papanicolau (NIC 2/3) ou colposcopia sugestiva de lesão precursora do câncer.
- Quem trata: Ginecologista especializado em patologia do trato genital inferior.
- Urgência: Moderada – embora não seja emergencial, o diagnóstico precoce é fundamental para evitar progressão.
- Tratamento: Remoção da lesão com margens livres, preservando a fertilidade na maioria dos casos.
Marina, 34 anos, fez seu preventivo de rotina e o resultado veio com “células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASC-US)”. Na colposcopia, o médico identificou uma área branca no colo do útero e realizou biópsia, que confirmou uma lesão de alto grau (NIC 3). Como ela ainda deseja engravidar, a melhor opção foi a conização a laser, que removeu a lesão com margens livres. Após três meses, o novo preventivo mostrou-se normal, e Marina pôde seguir com acompanhamento semestral. O caso ilustra como a conização pode tratar lesões precursoras sem comprometer a fertilidade.
O que é conização e quando é indicada
A conização é um procedimento cirúrgico de pequeno porte que consiste na remoção de uma porção em forma de cone do colo do útero. Essa peça retirada contém a junção escamo-colunar (área onde ocorrem a maioria das alterações celulares) e é enviada para análise anatomopatológica. O objetivo é duplo: diagnóstico (investigar se há células cancerígenas) e terapêutico (remover completamente a lesão).
A indicação mais comum ocorre quando a biópsia guiada por colposcopia revela neoplasia intraepitelial cervical de alto grau (NIC 2 ou NIC 3). Também é indicada em casos de adenocarcinoma in situ, quando a colposcopia é insatisfatória ou quando há discordância entre citologia e biópsia. Mulheres que desejam preservar a fertilidade são especialmente beneficiadas, pois a conização poupa o corpo do útero. Em 2024, as diretrizes brasileiras reforçaram que o procedimento deve ser reservado para lesões confirmadas histologicamente, evitando conizações desnecessárias em lesões de baixo grau (NIC 1), que frequentemente regridem espontaneamente.
Como o procedimento é realizado
A conização pode ser executada por diferentes técnicas, sendo as mais comuns: a cirurgia de alta frequência (CAF) com alça diatérmica, a conização a laser e a conização cirúrgica com bisturi frio. Todas são realizadas sob anestesia (local, regional ou geral) e geralmente não exigem internação prolongada – a maioria das pacientes tem alta no mesmo dia.
Na técnica com alça diatérmica (também chamada de LEEP), um fio metálico aquecido por corrente elétrica corta o tecido e cauteriza ao mesmo tempo, minimizando sangramento. Já o laser CO² permite maior precisão na excisão e menor dano térmico, sendo indicado para lesões mais extensas. A conização a bisturi frio é usada quando se necessita de margens maiores ou em casos de suspeita de microinvasão. Independentemente da técnica, o tempo médio do procedimento é de 10 a 20 minutos. Após a retirada, o colo do útero é cauterizado para hemostasia, e a peça é encaminhada ao patologista.
Preparo e cuidados antes do procedimento
Antes da conização, a paciente deve realizar exames pré-operatórios como hemograma, coagulograma e tipagem sanguínea. É importante informar ao médico sobre medicamentos em uso, especialmente anticoagulantes (AAS, varfarina, clopidogrel) e anti-inflamatórios, que aumentam o risco de sangramento. Também é necessário suspender o uso de duchas vaginais ou cremes vaginais por pelo menos 48 horas antes.
O procedimento é agendado preferencialmente na primeira fase do ciclo menstrual (logo após a menstruação), para garantir que a paciente não esteja grávida e para facilitar a cicatrização. Recomenda-se jejum de 8 horas para alimentos sólidos e 4 horas para líquidos, dependendo do tipo de anestesia. A presença de um acompanhante é aconselhável, já que a paciente não poderá dirigir após a sedação. Além disso, é essencial realizar uma colposcopia prévia detalhada para mapear a lesão e planejar a extensão da ressecção.
O que esperar durante o procedimento
A paciente será posicionada na mesa ginecológica, com as pernas apoiadas em perneiras, e receberá anestesia. Durante a cirurgia, ela pode sentir um leve desconforto pélvico, tipo cólica, mas não dor intensa. O médico utilizará um colposcópio para visualizar o colo do útero e uma alça ou laser para excisar o cone de tecido. É normal ouvir um pequeno ruído do equipamento e sentir o cheiro da cauterização.
Em média, a duração total é de 30 minutos, incluindo o preparo e a recuperação imediata. A equipe monitora os sinais vitais constantemente. Ao final, pode ser colocado um pequeno curativo hemostático (como uma gaze com ácido tricloroacético) no colo do útero, que será removido após algumas horas ou no dia seguinte. A paciente permanece em observação por 2 a 4 horas até receber alta, com orientações detalhadas.
Recuperação e cuidados pós-procedimento
Nos primeiros dias, é comum haver um corrimento vaginal acastanhado ou sanguinolento leve, semelhante a um final de menstruação. Esse corrimento pode persistir por até 2 a 3 semanas, enquanto o colo do útero cicatriza. É importante usar absorventes externos (nunca internos) e evitar relações sexuais, uso de tampões e duchas vaginais por pelo menos 4 a 6 semanas, ou até liberação médica.
A cicatrização completa ocorre em cerca de 6 a 8 semanas. Durante esse período, recomenda-se repouso relativo: evitar esforços físicos intensos, carregar peso, andar de bicicleta ou praticar exercícios de impacto. A paciente pode retomar atividades leves no dia seguinte, como trabalhar em escritório ou em casa, desde que não exija esforço. As dores são geralmente leves e controladas com analgésicos comuns, como paracetamol ou dipirona. O acompanhamento pós-operatório inclui uma consulta em 30 a 45 dias para avaliar a cicatrização e discutir o laudo anatomopatológico.
Riscos e complicações possíveis
Embora a conização seja considerada segura, toda cirurgia apresenta riscos. As complicações mais frequentes incluem sangramento excessivo (cerca de 2% a 5% dos casos), que pode ocorrer no intraoperatório ou tardiamente (até 14 dias depois) – nesse caso, a paciente deve procurar o serviço de urgência. Infecção pélvica é rara, mas pode se manifestar com dor, febre e corrimento purulento.
Outra preocupação é a estenose (estreitamento) do canal cervical, que pode dificultar a visualização do colo do útero em exames futuros e, em casos muito raros, interferir na fertilidade ou no parto. A conização também está associada a um pequeno aumento do risco de parto prematuro em gestações futuras, especialmente se a peça removida foi grande. Por isso, o médico deve ser criterioso na indicação e na extensão da ressecção. Mulheres que engravidam após conização devem informar o obstetra para um acompanhamento diferenciado da cérvice.
Alternativas ao procedimento
Em lesões de baixo grau (NIC 1) e em mulheres jovens com sistema imunológico saudável, a conduta expectante com acompanhamento citológico e colposcópico semestral ou anual é uma alternativa válida, pois muitas lesões regridem espontaneamente. Para lesões de alto grau que não podem ser tratadas por conização (por exemplo, em gestantes ou em casos de lesão muito extensa), a crioterapia (congelamento) e a vaporização a laser são opções ablativas, mas não fornecem material para análise histopatológica.
Em situações específicas, como adenocarcinoma in situ ou lesões que se estendem para o canal cervical, a conização continua sendo o padrão-ouro. Quando a fertilidade não é mais desejada e a lesão é recorrente, a histerectomia pode ser considerada. A escolha da melhor alternativa depende do tipo histológico, do tamanho e da localização da lesão, da idade da paciente e do desejo gestacional. A decisão deve ser compartilhada entre médico e paciente, com base nas evidências e nos valores pessoais.
Resultado e o que ele indica
O laudo anatomopatológico da peça de conização descreve o diagnóstico final (se a lesão estava presente e qual o grau), a presença de margens comprometidas ou livres e a profundidade da invasão, se houver. Margens livres são o principal preditor de cura; quando comprometidas, a paciente pode necessitar de uma segunda conização ou de tratamentos complementares, como histerectomia.
Cerca de 90% a 95% das mulheres com NIC 2/3 tratadas com conização são curadas, com preventivos normais nos exames de seguimento. Em casos de microinvasão (carcinoma microinvasor estágio IA1), a conização pode ser curativa, mas exige vigilância rigorosa. Se houver invasão maior, o tratamento oncológico convencional é indicado. É fundamental que a paciente mantenha o acompanhamento periódico: citologia e colposcopia aos 6 e 12 meses após a cirurgia, e depois anualmente, conforme orientação do Ministério da Saúde.
Quando é urgente procurar médico
Após a conização, alguns sinais merecem atenção imediata: sangramento vaginal abundante (que encharca mais de um absorvente por hora), coágulos grandes, dor pélvica intensa que não melhora com analgésicos, febre acima de 38°C, calafrios ou corrimento com mau cheiro. Esses sintomas podem indicar hemorragia ativa ou infecção.
Também é urgente procurar o médico se você apresentar, antes da cirurgia, sangramento vaginal após relação sexual, dor pélvica persistente ou alteração no fluxo menstrual. Mulheres com exames preventivos atrasados ou nunca realizados devem agendar uma consulta ginecológica para rastreamento. A detecção precoce das lesões precursoras é a chave para evitar o câncer de colo de útero, que é altamente prevenível e tratável quando diagnosticado em estágios iniciais.
- 01. Realize o preventivo (Papanicolau) anualmente ou conforme orientação médica. O exame é indolor e pode salvar sua vida.
- 02. Mantenha a vacinação contra HPV em dia. A vacina quadrivalente protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18, responsáveis pela maioria dos cânceres cervicais.
- 03. Após a conização, siga rigorosamente o repouso e as restrições de atividade física. O uso de absorvente externo é obrigatório por pelo menos 2 semanas.
- 04. Não fume. O tabagismo está fortemente associado à persistência do HPV e à progressão para lesões de alto grau.
- 05. Em caso de gestação futura, informe o obstetra sobre o histórico de conização para que ele avalie a necessidade de monitoramento cervical.
- 06. Guarde todos os laudos e resultados de exames para comparar ao longo do tempo – eles são importantes para o rastreamento.
- 07. Nunca faça duchas vaginais ou use cremes sem prescrição. Esses produtos podem alterar a flora e mascarar sintomas.
Perguntas Frequentes sobre conização
É possível engravidar após a conização?
Sim, a maioria das mulheres pode engravidar normalmente. A conização preserva o útero, mas há um pequeno aumento do risco de parto prematuro. O acompanhamento pré-natal deve ser rigoroso, com medição do comprimento do colo do útero. Mulheres que desejam engravidar devem conversar com o ginecologista antes da cirurgia.
Quanto tempo dura o procedimento?
O ato cirúrgico leva de 10 a 20 minutos. Somando o preparo e a recuperação imediata, a paciente fica no centro cirúrgico por cerca de 30 a 40 minutos. A alta hospitalar ocorre entre 2 a 4 horas após o término.
Precisa de anestesia geral?
Nem sempre. A maioria das conizações é feita com anestesia local (paracervical) ou sedação intravenosa. A anestesia geral é reservada para casos de lesões muito extensas ou em pacientes com ansiedade severa. Seu médico discutirá a melhor opção para você.
O que significa NIC 2 ou NIC 3?
São lesões precursoras do câncer de colo do útero. NIC 2 (neoplasia intraepitelial cervical grau 2) e NIC 3 (grau 3) representam alterações celulares de alto grau, que têm maior potencial de evoluir para câncer se não tratadas. A conização é indicada para removê-las.
A conização dói?
Durante a cirurgia, a paciente não sente dor devido à anestesia. No pós-operatório, a dor é geralmente leve, semelhante a uma cólica menstrual, e pode ser controlada com analgésicos comuns, como dipirona ou paracetamol.
Posso voltar a trabalhar no dia seguinte?
Atividades leves como escritório ou home office podem ser retomadas em 24 a 48 horas. Atividades que exijam esforço físico, carregar peso ou praticar esportes devem ser evitadas por pelo menos 2 a 3 semanas.
Existe risco de infertilidade?
Raramente. A conização pode causar estenose do canal cervical, o que dificulta a passagem dos espermatozoides. No entanto, isso é incomum. A maioria das mulheres mantém a fertilidade normal. Se houver dificuldade para engravidar, o médico pode avaliar a permeabilidade cervical.
O cônico removido pode voltar a crescer?
O tecido removido não regenera da mesma forma, mas o colo do útero cicatriza e se remodela. A paciente continua sob risco de novas lesões pelo HPV, por isso o acompanhamento com preventivo e colposcopia deve ser mantido anualmente.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clínica Popular Fortaleza, com base em evidências científicas atualizadas e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 25/06/2026
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica profissional. Sempre consulte um médico ou profissional de saúde habilitado para diagnóstico e tratamento.
Fontes: MSD Saúde | Hospital Israelita Albert Einstein
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